Receita com tesouraria cresce mais do que com empréstimos nos bancos

04 set Receita com tesouraria cresce mais do que com empréstimos nos bancos

Instituições estão usando dinheiro captado com os clientes em aplicações financeiras, que têm rendimento balizado na Selic e possuem menos riscos que o crédito a empresas e consumidores

São Paulo – O faturamento dos maiores bancos com aplicações financeiras (títulos de dívida, principalmente), nas chamadas operações de tesouraria, cresceu mais do que a receita com empréstimos, no primeiro semestre deste ano.

Enquanto os ganhos com financiamentos somados do Itaú, Bradesco e Banco do Brasil cresceram 22,6%, na comparação com os primeiros seis meses do ano passado, para R$ 123,3 bilhões, o faturamento com os investimentos em títulos e outras aplicações avançou 65,6%, para R$ 81,4 bilhões.

Segundo especialistas ouvidos, a combinação de recessão econômica com ciclo de altas da taxa básica de juros (Selic) faz com que as instituições prefiram usar o dinheiro captado em operações de tesouraria do que em empréstimos.

“Se a economia estivesse crescendo e os consumidores e empresas tivessem dinheiro, os bancos destinariam mais recurso para crédito, que dá mais retorno do que tesouraria”, explicou Miguel de Oliveira, diretor de estudos econômicos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

De acordo com ele, no entanto, como a Selic, que baliza o rendimento das aplicações financeiras, está em 14,25% ao ano, e o cenário econômico faz com que o risco de os clientes darem calote nos empréstimos cresça, as instituições destinam mais caixa para os investimentos do que para financiamentos.

“O retorno é menor, mas também tem menos riscos”, apontou o executivo.

Giuliano Contento de Oliveira, professor do Instituto de Economia da Unicamp, afirmou que a desaceleração da receita com empréstimos(juros) é reflexo tanto da redução da demanda quanto da oferta de crédito.

“De um lado, os consumidores e as empresas estão com o orçamento apertado e mais cautelosos em tomar crédito”, disse. “Por outro lado, também houve diminuição de tomadores que atendam os critérios estabelecidos pelos bancos para classificação de risco de crédito”, completou.

Para Marta Pelucio, professora da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), as empresas estão estagnadas e, aquelas que necessitam de crédito, não o querem para investimentos, mas para ajudar no fluxo de caixa. “Para o banco, é mais interessante deixar o dinheiro rendendo em tesouraria do que tomar risco emprestando”, apontou.

Despesas com juros

Apesar de a alta da Selic estar favorecendo os bancos nas operações de tesouraria, as instituições financeiras também estão gastando mais para captar recursos.

Dados dos balanços mostram que as despesas com captações cresceram 33,3%, para R$ 184,5 bilhões.

Segundo os especialistas, entretanto, por possuírem uma base de clientes grande e estarem capitalizados, os grandes bancos conseguem captar a um custo mais baixo que os bancos de menor porte. “A diferença entre o que eles pagam para captar e o rendimento de uma aplicação financeira ainda é rentável para as grandes instituições”, disse Oliveira.

Além dos ganhos com os juros dos empréstimos e das aplicações financeiras, a chamada receita com intermediação financeira também conta os ganhos com juros das aplicações dos ativos de seguro, previdência e capitalização.

Nas chamadas despesas da intermediação financeira, contudo, também são contadas as despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD), colchão formado pelo banco contra calotes.

Por conta do crescimento dessas despesas e do cenário econômico, o resultado da intermediação financeira (receitas menos despesas), no critério contábil, está diminuindo – caiu 13,48% na variação semestral, para R$ 48,9 bilhões.

 

Pedro Garcia

Fonte: DCI

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